terça-feira, 23 de agosto de 2011

Assumo que escrevi a micro-postagem de ontem com muito ódio no coração, e que eu sei que o dito primeiro-mundo não é o maior paraíso na terra.
Mas deixa eu contar que eu sempre fico meio chocada quando chego de viagem. Fui no mercado com Namorado, fizemos uma compra de coisas básicas, nada muito especial, compras casa-comida das mais simples. Deixamos uma pequena fortuna no caixa, e por motivos de transporte + peso, pegamos um taxi pra voltar pro apê. Foi tranquilo e nem foi um dinheirão desperdiçado - o caso do taxi me dá mais dor moral, claro fica que eu tenho problemas pessoais em andar de taxi. O motorista foi tão bonzinho e amigo, parou o taximetro antes, ajudou a carregar e descarregar as compras, que não dá pra reclamar do serviço.

Só que antes das compras a gente foi almoçar no xópis, no restaurante que eu costumo gostar muito e cujo custo-benefício é por vezes justificado. Ontem não foi. Acho que meu azedume me acompanhou até a hora de comer; me empolguei com a presença de mexilhões na 'pista' de alimentação e aí parei por lá mesmo. Meu prato não foi grande, e o preço me pareceu relativamente justo, mas a comida estava terrível, terrível. Do ponto de eu acabar o que consegui e pensar 'devia ter ido no McDonalds', e vocês sabem que McDô é uó do boró, a não ser que você esteja em Atenas, onde incrivelmente o lanche é saboroso e vale à pena bancar. Me deu uma sede dos diabos e eu queria um suco. Aí sim fui no McDô, mas corri de pagar R$ 4,00 um copo de suco; até passei na lojinha do lado - especializada em sucos naturais e lanches 'saudáveis', e corri mais umas léguas depois de descobrir que um suquinho de melancia era R$ 5,90. Fiquei com sede.

Queria meu café do dia, fui no Fran's café, pedi um café caramelo que eu sabia que ia ser uma bosta. Foi uma bosta de R$ 5,00. Na Inglaterra tem uma rede de café italiano que se chama Caffè Nero, e eu aprendi com a Amiga de Cambridge a tomar um preparado que se chamava 'caramelatte'; a xícara era enorme, deve vir uns 400 ml de leite + café + xarope de caramelo + chantilly + calda de caramelo, e me lembro que não custava £4. Eu paguei R$ 4,90 por uma xicrinha de um líquido que não tinha gosto nem de café, nem de leite, nem de caramelo. Fuém!

Não quero ser aquela ingrata que fala mal do país de origem - e muito pelo contrário, sou a mais entusiasta em ser brasileira e de ficar aqui e falar sobre as coisas boas que eu acho que meu lindo país tem. Mas puta merda, a gente não sabe! A gente não dá valor nem ao gosto nem ao gasto.
Eu já falei muitas vezes que eu aprendi nas viagens que a gente não tem que converter. Eu não converto moeda, eu compro as coisas pelo valor que eu acho que eu devo pagar. Mas o Brasil é meio palhacinho com isso: vende-se muito caro coisas de baixa qualidade.
E a gente paga.

Enfim, eu fico meio doida com essas coisas imediatamente após voltar de um país estrangeiro, e isso não passa facilmente. E não é ser esnobe, nem apenas chatinha, eu fui viajar com uma verba boa, mas que não imaginei ser possível me manter por todo o tempo. Eu já tinha programado comprar mais dinheiro durante a estadia, e me vi voltando com um belo trocado pra cá sem precisar comprar mais nada. Sendo libra, ou sendo euro, eu consegui pagar todas as minhas contas, comer loucamente coisas muito boas, comprar roupa, comprar caderninho, comprar presentinho, comer fora diversas vezes, comprar cafeteira (essa é preciso falar. Sabem quanto eu paguei minha Nespressinha? 59 euros - tive um desconto do clube Nespresso, é claro, o valor original pagoi foi 129 euros, mas recebi 70 de volta. Sabem quanto ela custa aqui no Brasil? Choremos.).

Me magoa, cara. Me magoa saber que a gente consome muito coisas que são muito, muito ruins. Que a gente paga muito por aquilo que não vale nada. Fui na Marisona ontem. Tô desde há um tempo querendo jogar todos os meus trapos fora e começar a reformar o guarda-roupa. Eu, que ligo menos ainda pra isso. Deixei uma enorme quantia de roupa não usada lá na casa da Amiga-Irmã pra doar pro Exército da Salvação francês, e isso pra evitar voltar com os panos que eu não uso mais aqui e nem usei lá. Tô obrigada a comprar roupa. Daí, então, fui na Marisona. Roupas descartáveis, muitas bem feias, e todas MUITO caras. Achei uma batinha bonitinha. Mas um pano transparente, daquele que vai me fazer comprar ainda um sutiã bonito e uma camisete pra usar por baixo. Pano-transparente. Sabe quanto custava? 60 reais. SESSENTA. Um pano. Transparente.

Porra!

Enfim. Minha reclamação de ontem não tinha a ver com preços, custos, coisas. Tinha a ver com pessoas. Pessoas acadêmicas e seus e-mails ridículos.
Mas aí eu preferi reclamar das outras coisas, viver a vida doméstica. Tão injuriada estava com meu mundo profissional, que falei pra Namorado que ia ter filhos, virar mãe e dona-de-casa. Mas olha só o que eu tenho que enfrentar na vida doméstica! São os preços, as qualidades, as porcarias. Filho meu não nasce num mundo assim não!

Cara, a gente não vive.
E não faz nada.
Não que eu concorde com os m.o., mas na Grécia eles brigam com a polícia, na Inglaterra eles tacam fogo, na França eles vão pra rua se o bilhete de metrô sobe mais centavos do que o necessário.
Aqui, não.

Vou ali tomar um nespresso e continuar sonhando com minha vida pequeno-burguesa européia que eu ganho mais. Foda vai ser quando minhas cápsulas acabarem, porque aqui só tem boutique Nespresso na Oscar Freire, shopping Higianópolis e demais antros vomitativos de gente rica.

Se eles soubessem que lá até o mendigo europeu (ou brasileiro, oi) pode comprar sua cafeteira...

Às armas, pessoal... Às armas.

12 tentando também:

Emil disse...

Só digo de pé, ó vítimas da fome. Bora queimar o mundo.

Gabriela disse...

Pior que as capsulinhas lindas saem quase o mesmo preço pelo Ebay, já pesquisei ... Facada.

Que só tem coisa podre e superfaturada por aí, eu já sabia e me estresso desde sempre ... Os lugares bons mesmo, cafés bons mesmo, roupas boas mesmo, não são para o nosso bolso classe média.

Por isso que vale a pena ter uma cafeteira decente em casa, comprar copinhos que agradem os olhos, pesquisar receitinhas delícia e se virar em casa. Fica muito melhor, certeza.

Roupas, se vc não estivesse precisando tipo JÁ, meu conselho seria esperar as liquidações e ir em loja de madame, pq fia, 60 contos em trapo da Marisa é AFRONTA ! Pior que os putos ainda escravizam os bolivianinhos por centavos ... Eu sei como é, já paguei mais que isso na Marisa tb ... Mas revolta, ahhh se revolta ! Espera liquidação e vai na Rery, fora de liquidação não dá ...

Beijão e bem vinda ! rsrss

tatiane disse...

Nem fale de comprar lixo pagando caro. Sem falar nos serviços de merda. Dia desses estava debatendo com marido porque eu boicoto lojas que não respeitam prazo de entrega, e ele acha que daqui a pouco não vou comprar em loja nenhuma porque são todas igualmente ruins.
Mas acho que aqui, pelo menos, a gente só tem algum "poder" como consumidor, porque como cidadãos somos palhaços mesmo, só que o povo ainda não se ligou nisso...

Bi@ disse...

Não falem de serviços de merda até morar no Rio... Sem mais!

Descobrindo-me disse...

Já que vc odeia tanto o Brasil, o que vc tá fazendo aqui ainda?

Fernanda disse...

sabe, quérol, minha mãe é daquele tipo que adora os EUA, que viaja pra lá todo ano, que compra absolutamente tudo nessas viagens, e que sempre ressalta como as coisas lá são boas, baratas, como o consumidor lá é respeitado, como isso, como aquilo.



e sabe o que é pior? Ela tem razão.


eu sou brasileira com muito orgulho. mas também com muita vergonha por essas e outras.


beijo!

Fernanda disse...

btw, que bom te ter de volta! :) :*

Quéroul disse...

Taí, Descobrindo-me dando bons exemplos do que eu não gosto de encontrar em meu querido e coitado país: gente sem educação e analfabeto funcional.

Vou nem pedir pra apontar onde eu escrevi que odeio o Brasil porque né, pedir demais...

beijo.

Emil disse...

Todos às ruas lutar por uma educação de qualidade, nem que seja pelo mais egoísta dos motivos: nunca mais ser interpelado por analfabetos funcionais.

Karen disse...

Quéroul,estava na Economist do começo do mês, o Big mac brasileiro é o mais caro do mundo. Eu quase não como mais fora, reclamo quando o serviço é ruim, evito comprar roupa.

A educação e a falta de cortesia da classe média também têm deixado a desejar...

As pessoas devem reclamar sim, há sempre o que melhorar. Nada contra o ufanismo, mas cegueira é idiotice.

Karen disse...

Ah, respondi o e-mail usando outro endereço, não o do blog. Não jogue na lixeira...

Renata disse...

É amiga, choremos mesmo! Vamos de mala e cuia pra zoropa!!! :D

Beijo!